Apesar da alta nas commodities e do salto nos plásticos de engenharia, empresários e especialista no setor afirmam que crescimento do consumo pode não ser sustentável
Os números divulgados pela ADIRPLAST (Associação Brasileira de Distribuidores de Resinas Plásticas e Afins) para os sete primeiros meses de 2025 apontam uma recuperação expressiva nas vendas do setor. O volume total alcançou 241.153 kt, contra 214.362 kt em igual período de 2024, um crescimento de 12,5%. Nas resinas commodities (PEs + PP + PS), o avanço foi de 10,6%, passando de 189.339 kt para 209.451 kt, enquanto os plásticos de engenharia, masterbatch e compostos registraram um salto de 26,7%, passando de 25.023 kt para 31.702 kt.
Para Simone Teixeira, analista da Townsend e fonte de informações para a instituição, esse crescimento precisa ser visto com cautela. Segundo ela, o avanço nas commodities surpreendeu diante de um cenário em que o mercado de PE recuou 7% no primeiro semestre e o de PP caiu mais de 4% em relação a 2024. Ela explica que essa queda foi reflexo da retração de 11,5% nas importações, já que as vendas do produtor nacional caíram pouco mais de 1%. Na avaliação da analista, o resultado reflete mais fatores pontuais, como a antecipação de compras motivada pela possível aplicação de tarifa antidumping sobre o PE importado do Canadá e dos EUA, do que um crescimento estrutural do consumo.
No caso do PP, sem esse efeito de antecipação, houve retração de mercado. Para Simone, a desaceleração da produção industrial, a queda dos índices de confiança empresarial, o aumento da inadimplência e a manutenção dos juros em patamar elevado reduzem a expectativa de desempenho mais forte no segundo semestre. Ainda assim, a analista enxerga um aspecto positivo: os números indicam aumento do market share dos distribuidores da ADIRPLAST frente às petroquímicas, tendência que pode se manter com clientes preferindo compras fracionadas diante da incerteza econômica.
Na visão de Laercio Gonçalves, vice-presidente da ADIRPLAST e presidente do Grupo activas, o crescimento das vendas representa, até agora, uma demanda forçada, sem real expansão em boa parte do mercado, salvo em segmentos específicos. Ele ressalta que a continuidade desse ritmo dependerá do desempenho industrial e da estabilidade econômica no segundo semestre. Parte do avanço das commodities, segundo ele, está ligada ao acúmulo de importados que chegaram concentrados no primeiro semestre após problemas logísticos globais. Já no caso dos plásticos de engenharia, o movimento é mais consistente: há maior procura por materiais de valor agregado e desempenho técnico, especialmente nos setores automotivo e eletroeletrônico.
Laercio explica ainda que, enquanto o crescimento das commodities pode ser visto como acima da média, a taxa de 26,7% dos plásticos de engenharia é bastante significativa e tende a superar o desempenho setorial. Ele destaca ainda fatores externos que colaboraram para o resultado, como a valorização pontual do real, a normalização da logística global e a retomada de setores como o automotivo e o de bens duráveis, mas ele também alerta que juros elevados, inflação, volatilidade cambial e incertezas macroeconômicas podem comprometer os próximos meses.
José Augusto Viveiro, gerente comercial da Mais Polímeros, também acredita que uma parcela significativa desse crescimento não corresponde a consumo efetivo, mas sim a volumes estocados. Para ele, a valorização do real, a ameaça de antidumping e as incertezas cambiais estimularam o aumento dos estoques, o que deve gerar, por outro lado, um movimento de desestocagem nos próximos meses. Viveiro reforça que os percentuais observados estão acima da média histórica e lembra que, tradicionalmente, a indústria de embalagens cresce de 2,5 a 3 vezes acima do PIB nacional. Ele avalia, no entanto, que fatores como risco de inadimplência, contração da oferta de crédito e juros altos são fortes inibidores do crescimento futuro.
Além dos fatores apontados — como os fatores conjunturais, diversificação do mix, com o fortalecimento gradual dos plásticos de engenharia, e o aumento dos estoques —, os entrevistados ainda ressaltam que o acompanhamento de indicadores-chaves — como produção industrial, índices de confiança empresarial e do consumidor, volume de importações, câmbio e preços internacionais das resinas — será determinante para avaliar a sustentabilidade do crescimento observado até então no setor.

